Quimioterapia e terapias de bloqueio hormonal podem provocar mudanças importantes na saúde íntima. No Outubro Rosa, também precisamos falar sobre aquilo que acontece depois do diagnóstico — e que muitas mulheres ainda enfrentam em silêncio.
Quando falamos sobre câncer de mama, naturalmente pensamos primeiro no que é mais urgente: diagnóstico, cirurgia, quimioterapia, radioterapia, medicamentos, exames.
É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
E, no meio de tudo isso, alguns efeitos do tratamento podem parecer pequenos demais para serem mencionados.
A região íntima começa a ficar mais seca. Surge ardência. Coceira. Desconforto com a roupa. A relação sexual pode começar a doer.
E muitas mulheres simplesmente suportam.
Mas ressecamento íntimo também merece cuidado.
O que o tratamento do câncer de mama tem a ver com a região íntima?
Muito mais do que parece.
O estrogênio participa da manutenção da hidratação, elasticidade, espessura e circulação dos tecidos vulvares e vaginais.
Quando seus níveis diminuem, esses tecidos podem se tornar mais finos, secos e sensíveis.
Isso acontece naturalmente na menopausa. Mas também pode acontecer como consequência de alguns tratamentos para o câncer de mama.
A quimioterapia, por exemplo, pode comprometer temporária ou permanentemente a função dos ovários, levando a uma redução importante dos hormônios ovarianos. O efeito depende, entre outros fatores, da idade da mulher e do tratamento utilizado.
Já nos tumores sensíveis a hormônios, a terapia endócrina tem justamente o objetivo de interferir na ação ou na produção do estrogênio.
Medicamentos como o tamoxifeno e os inibidores de aromatase fazem isso por mecanismos diferentes — e ambos podem estar associados a sintomas geniturinários. Nos inibidores de aromatase, os níveis de estrogênio podem ficar ainda mais baixos do que aqueles normalmente encontrados após a menopausa.
Não é “só um pouco de secura”
O ressecamento pode ser o sintoma mais conhecido, mas não é o único.
A mulher pode perceber:
- sensação de secura ou repuxamento;
- ardência ou irritação;
- coceira;
- maior sensibilidade da vulva;
- dor ou desconforto durante as relações;
- desconforto até mesmo ao caminhar, sentar ou usar determinadas roupas;
- alterações urinárias em algumas mulheres.
Esse conjunto de alterações relacionadas à redução do estrogênio costuma ser chamado de síndrome geniturinária da menopausa. E pode acontecer também quando a baixa hormonal é consequência do tratamento oncológico.
Não é frescura, não é apenas uma questão sexual e não precisa ser suportado em silêncio.
Saúde íntima também é qualidade de vida.
Hidratar e lubrificar não são a mesma coisa
Essa diferença é especialmente importante para quem está vivendo ressecamento íntimo.
O hidratante íntimo faz parte da rotina de cuidado. Seu papel é ajudar a manter a região hidratada e confortável de forma regular.
O lubrificante tem outra função: diminuir o atrito durante a relação sexual ou o contato íntimo.
Por isso, uma mulher pode precisar dos dois.
Diretrizes para mulheres com histórico de câncer de mama colocam as opções não hormonais — como hidratantes e lubrificantes — entre as primeiras estratégias para o cuidado dos sintomas vulvovaginais. Produtos contendo ácido hialurônico também aparecem entre as alternativas estudadas.
A frequência e o tipo de produto, porém, devem considerar onde está o desconforto e as necessidades de cada mulher.
E se o tratamento hormonal não for uma opção?
Essa é uma dúvida particularmente importante para mulheres que tiveram câncer de mama hormônio-dependente.
Na população geral, tratamentos locais com estrogênio podem ser utilizados para determinados sintomas geniturinários. Mas, quando existe histórico de câncer de mama — especialmente durante o uso de terapia endócrina — essa decisão precisa ser individualizada.
Por isso, abordagens não hormonais são recomendadas como primeira linha para mulheres com histórico de câncer de mama estrogênio-dependente.
Se elas não forem suficientes, existem outras possibilidades médicas. A escolha depende do tipo de tumor, do tratamento em uso, da intensidade dos sintomas e da avaliação individual.
Em algumas situações, até o estrogênio vaginal em baixa dose pode ser discutido. Para mulheres que usam inibidores de aromatase, por exemplo, essa decisão deve ser compartilhada entre a própria mulher, o ginecologista e o oncologista.
Ou seja: ter tido câncer de mama não significa que você precise conviver para sempre com o desconforto. Significa que o cuidado precisa ser individualizado e discutido com sua equipe.
Por onde começar?
Se a região íntima começou a mudar durante ou depois do tratamento, o primeiro passo é falar sobre isso.
Conte ao oncologista ou ginecologista se existe secura, ardência, coceira, dor nas relações ou qualquer outro desconforto.
No cotidiano, alguns cuidados também podem ajudar:
- evitar produtos perfumados ou potencialmente irritantes na região íntima;
- manter uma rotina de hidratação adequada às suas necessidades;
- utilizar lubrificante durante as relações quando houver atrito ou desconforto;
- não insistir em relações dolorosas;
- conversar com a equipe médica se os sintomas persistirem ou forem intensos.
E existe um ponto importante: nem todo ardor, coceira, dor ou alteração vulvovaginal é causado pela falta de estrogênio.
Infecções, alterações dermatológicas e outras condições também podem provocar sintomas semelhantes. Por isso, principalmente diante de dor intensa, sangramento, corrimento diferente, lesões ou sintomas persistentes, vale procurar avaliação médica.
Um cuidado diário que também pode fazer parte dessa rotina
Quando o desconforto está principalmente na região externa, a hidratação da vulva pode fazer parte dos cuidados diários.
Creme Hidratante Íntimo Kunda Care
Um cuidado cosmético diário para a área externa, que pode fazer sentido dentro de uma rotina não hormonal de hidratação.
E vale repetir uma diferença importante: o hidratante não substitui o lubrificante quando o objetivo é reduzir o atrito durante a relação.
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Outubro Rosa também é falar sobre qualidade de vida
Sobreviver ao câncer é o que importa primeiro.
Mas viver bem depois — e durante — o tratamento também importa.
Falar sobre saúde íntima não diminui a dimensão de tudo o que uma mulher atravessa quando recebe um diagnóstico de câncer de mama.
Ao contrário.
É reconhecer que ela continua sendo uma mulher inteira.
Que conforto, sexualidade, autoestima e bem-estar continuam fazendo parte da sua saúde.
E que nenhum desconforto precisa ser considerado pequeno demais para entrar na conversa.
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Fontes e leitura complementar
American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Treatment of Urogenital Symptoms in Individuals With a History of Estrogen-dependent Breast Cancer. Clinical Consensus.
Leia o consenso do ACOG
American Society of Clinical Oncology (ASCO). Long-Term Follow-Up Care After Treatment for Primary Breast Cancer: Strategies and Considerations.
Leia a publicação da ASCO
American Society of Clinical Oncology (ASCO). Interventions to Address Sexual Problems in People With Cancer.
Leia a diretriz da ASCO
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Decisões sobre o cuidado da saúde íntima durante ou após o tratamento do câncer de mama devem ser sempre discutidas com seu oncologista e ginecologista.
